abril 11, 2003

The Lurker e a questão do gênero (ou primum vivere, deinde philosophari)

E eis que ressurge o Adamastor, depois de três semanas desaparecido. Volta à casa e estranha o cheiro - o que terá se hospedado no buraco junto aos alicerces do edifício, enquanto ele estava de férias?

Ocorre que estas andanças parecem ter feito muito bem ao Adamastor: ele está _muito_ gordo. E o acúmulo adiposo nas regiões onde se encontra parece denunciar uma coisa diferente de um relax num SPA cheio de camundongos: ele não é ele... é ELA.

The Lurker says: Natura non facit saltus.

abril 10, 2003

The Lurker e a prespectiva econômica(ou Sic transit gloria mundi)

São divertidos certos problemas que os economistas nos apresentam de vez em quando. Freqüentemente seus postulados se iniciam com frases tais como “tomemos por absurdo” ou “em um mundo ideal” ou ainda a famosa máxima latina “coeteris paribus”, que indica que ação deste fenômeno nenhum outro interfere. Premissas e teses que começam assim já não tem lá muita chance de sobreviver em um mundo real, não acadêmico. Entretanto, como início de conversa, servem lá para alguma coisa.

A propósito das discussões acerca da bagunça que o Júnior anda fazendo nas terras da Babilônia, tomemos por absurdo que o mundo tenha realmente se tornado aquilo que os teóricos andaram trombeteando há alguns anos atrás. Esqueçamos que, conceitualmente, a mídia não trata a globalização com a definição e a objetividade necessária, sendo o pobre apresentado pelas suas conseqüências, terminando muitas vezes em sentenças normativas ou em afirmações genéricas do tipo “aldeia global”.

Então, tendo em vista o tratamento dispensado pelos “irmãos do norte” ao “resto da aldeia” você, um(a) pataxó globalizado(a), resolveu aderir à execração pública do Tio Sam. Logo você mudou seu refrigerante, seu sandwich, mandou uma dezena de e-mails desaforados, enfiou o tênis Ni*e no fundo do armário, jogou ovos na estátua em frente ao shopping e, arfando em sua catarse contra o imperialismo, disse, como quem deu sua contribuição à sociedade, que estava fazendo a sua parte como cidadão engajado. Não me entenda mal, não estou defendendo postura nenhuma (ainda), apenas um outro nível de análise: você realmente cortou onde deveria? É suficiente mudar de carro, de tênis, de lanchonete para fazer a diferença? Para que isso impacte a “meca do consumo”?

Em um mundo ideal, talvez sim. Entretanto, na realidade não é só o seu sandwich que importa, nem mesmo quando somado aos de mais duzentas pessoas que você convenceu a fazer o mesmo. Isto não será perene. O que impacta realmente é, e sempre foi, a sua atitude e respeito, sobre a SUA própria cultura. O que faz mais diferença ainda é o quanto (e o que) se absorve do que vem de fora e isso acontece todo dia, nas pequenas coisas. De nada adianta chegar em casa e ligar sua tv a cabo para assistir Friends, minha cara, depois de ter ido a uma passeata pela paz. Pode não ser tão simples de ser percebido, mas o entranhamento dos valores externos aos nossos hábitos e junto aos “formadores de opinião”, incluindo-se aí os seus órgãos de divulgação, é muito grande. A pergunta é, então: o quanto você conhece do problema? E até onde está disposta(o) a ir para combatê-lo?

Se você eventualmente concluir que foi culturalmente absorvido(a) não se sinta de todo mal com isso, pois você está em muito boa companhia. Diversas das grandes sociedades modernas passaram por alguma forma de absorção em alguma fase de sua história: os franceses, anexados pelos romanos; os romanos (do oriente) pelos turcos; espanhóis pelos mouros; manchus pelos japoneses, etc, etc. A principal diferença entre o antes e o agora é a quantidade de informação disponível nestes tempos para que se reaja.

Em resumo, uma mudança de postura deste estilo dará muito mais trabalho do que atacar o consumo e tomará muito mais tempo e cuidados. Implicará resgatar o que foi deixado de lado porque o “do outro” era melhor. Vai demandar concessões que talvez você não queira fazer, e que você atente a coisas realmente importantes que estavam relegadas a segundo plano. Se você pensa que não é por aí, achou tudo isso muito disparatado, afirma que está perfeitamente sintonizado(a) com sua sociedade e seus ícones, vá em frente e faça um teste: cante agora o Hino Nacional inteiro - e não engasgue no “Deitado eternamente em berço explêndido”.

The Lurker says: QED - quod erat demonstrandum

abril 08, 2003

The Lurker and the happy life of middle management (ou... ou nada)

Essa é dedicada a uma pessoa a quem, por dever de ofício e teimosia superior, em breve serei obrigado a magoar dizendo coisas que não gostaria de dizer e fazendo coisas que não desejo.

It's Probably Me
Sting

If the night turned cold and the stars looked down
And you hug yourself on the cold cold ground
You wake the morning in a stranger's coat
No one would you see
You ask yourself, who'd watch for me
My only friend, who could it be
It's hard to say it
I hate to say it, but it's probably me
When your belly's empty and the hunger's so real
And you're too proud to beg and too dumb to steal
You search the city for your only friend
No one would you see
You ask yourself, who could it be
A solitary voice to speak out and set you free
I hate to say it
I hate to say it, but it's probably me
You're not the easiest person I ever got to know
And it's hard for us both to let our feelings show
Some would say I should let you go your way
You'll only make me cry
If there's one guy, just one guy
Who'd lay down his life for you and die
It's hard to say it
It's hard to say it, but it's probably me
When the world's gone crazy and it makes no sense
There's only one voice that comes to your defence
The jury's out and your eyes search the room
And one friendly face is all you need to see
If there's one guy, just one guy
Who'd lay down his life for you and die
It's hard to say it
I hate to say it, but it's probably me
I hate to say it
I hate to say it, but it's probably me

The Lurker says: Damn it.

março 17, 2003

The Lurker e Adamastor (ou Caveat Felix)

O centro de qualquer grande cidade ocidental não varia muito, independentemente do país em que você se encontre. Via de regra trata-se de um amontoado de edifícios, carros, gente apressada, vocês sabem. Existem, contudo, eventuais oásis de tranqüilidade, que surgem de tempos em tempos.

De meu escritório, no quarto andar de uma destas modernas torres de concreto e vidro, sou privilegiado com a vista de um gramado verde, bem cuidado, um destes oásis urbanos onde se pode relaxar. É lá que ele se deita pela manhã cedo. Na saída de sua casa, preguiçosamente observa o corre-corre geral e o eventual transeunte que nem sequer o percebe, oculto que permanece dos olhares apressados. Sua calma e placidez são as de quem, após uma noite de diversão, tem o dia inteiro para descansar seu físico bem proporcionado. Para ele tudo está bem: sabe que o mundo lhe pertence. Seus olhos verdes observam com desdém o executivo afobado, como quem imagina o que poderia ser tão importante para fazer com que alguém perca seu café da manhã.

Pelas nove horas ele sobe para um ponto mais elevado, onde o sol que atravessa os edifícios, vindo do Lago, pode aquecê-lo melhor, passeando com seus raios sobre o corpo esguio. Dali a pouco será hora de seu banho, e ele se lavará sem pressa, enquanto o mundo prossegue seu ritmo frenético em volta do jardim. Este é o amanhecer do Adamastor. Ele é um gato.

O animal mesmo. Porque? Pensou outra coisa? Felix Catus, gênero Domesticus, sim senhora. Possui uma pelagem amarela rajada de laranja e manchas brancas no peito, patas e atrás das orelhas. Refiro-me a ele utilizando o masculino porque não tenho lá muita certeza do gênero e, numa cultura machista como é a nossa, o masculino é o que se apresenta preferencialmente na formação das sentenças. Dizem que é freqüente que não se tenha certeza com gatos, ainda mais quatro andares acima do chão. Eu não sei. Entendo pouco de gatos.

Adamastor fez sua casa no jardim imediatamente abaixo da minha janela. Ele habita um espaço entre a grama e uma falha na estrutura do prédio à frente que permite que ele entre por baixo e se acomode no que eu imagino sejam os alicerces. Deve ser espaçoso por lá.

Adamastor passa o dia fazendo as coisas que os gatos fazem: quase nada. Pega seu sol até as quatro da tarde, quando começa a se preparar para a festa.

Em dias em que o trabalho pesa mais, o prazo encurta, a responsabilidade aperta, o micro trava, eu olho para o jardim e penso. Eu queria ser o Adamastor...

The Lurker says: A felicidade está nas pequenas coisas.

março 14, 2003

The Lurker em dia de cibernostalgia (ou "Excuse me, m´am. Did I leave my boots under your matress?")

Hoje me descobri analisando o quanto minha relação com a informática mudou nos últimos 15 anos. Sou, como se diz, da era do bit lascado. Meu primeiro computador que não se parecia com uma caixa de fósforos com teclado tinha um floppy de 120kb (algumas imagens pequenas hoje tem este tamanho) e cada disquete custava US$ 5,00. Então cortávamos um pedacinho do lado esquerdo para poder usar o verso do disquete. Afinal, só existiam discos importados e nem sempre era fácil conseguir um, em tempos de Sarney e reserva de mercado de informática. Hard Disk era uma coisa impensável e impagável. E mesmo que desse para comprar, ia ter uns 5Mb.

Lembro-me de meu assombro quando descobri na casa de um amigo que existiam computadores ligados na televisão e que geravam imagens coloridas (16 cores, veja bem). Corri para casa e arranjei um adaptador para liga o meu numa velha Philips à válvula.

Internet? Como? Naqueles tempos havia um programa pela Embratel chamado Cirandão (ou projeto Ciranda, seu antecessor). Basicamente era um sistema de chat e correio eletrônico muito primitivo, que funcionava com um fabuloso modem de 300bps (isso aí, senhores e senhoras que reclamam de seus 56000bps hoje em dia). – time passes –

Um pouco mais adiante, os poucos aventureiros que, como eu, se metiam neste mundo pela primeira vez eram confrontados com terminologias interessantes e pessoas misteriosas. O “importador” de quem comprei meu primeiro PC (um XT 8088) foi duas vezes à minha casa para ter certeza que não era “cilada”. Lembro-me de ter perguntado se o computador viesse sem relógio (clock) não saia mais barato. O cara não ouviu a pergunta porque Deus protege os inocentes e os ignorantes.

Um pouco mais adiante usavam-se os serviços de BBS, através de linhas discadas leeentas, voando agora a 9600bps. Haviam as sérias e as piratas. As gratuitas, as restritas e as pagas (a Mandic começou assim). Os tipos exóticos que se encontrava nas vias da informação eram cada vez mais interessantes. A linguagem era hermética e facilmente se reconhecia quem era do meio e quem estava de firula. Ainda hoje é fácil identificar o pessoal desses tempos perguntando quem sabia o que era uma Black Box. Era o reino do Blue Wave, do ASCII. – time still passes –

Mudaram os processadores aumentaram as velocidades. Entrou a série 386 (eu pulei a 286, que esse negócio estava caro). A complexidade das conversas e dos tipos crescia à medida que se conseguia maior e melhor performance. Com meu 486 veio o acesso aos sistemas da universidade e, como não poderia deixar de ser, à Bitnet (céus, como isso era arcaico). Mas ainda se conversava coisa séria, ciência, política, cultura, pesquisa. Tudo bem, eu não tinha lá muita compreensão disso na graduação, mas foi melhorando até conseguir minha primeira conta Internet. Uau! A coisa só funcionava emulando janelas UNIX (e ele não caía, como certas interfaces gráficas metidas a sistema operacional)... Mas os preços sim e a necessidade de uso da máquina cada vez mais crescia – even now time passes –

Mas o porque desta digressão ao mundo do passado cibernético recente, se comparado às eras geológicas, ou longínquo se considerado o tempo de vida de um pernilongo? Bem, basicamente o que se via então era um respeito muito maior pelo espaço cibernético, que era mais dedicado ao processo de troca de informações, arquivos e idéias entre pessoas. Me chame de besta, mas dava mais prazer mexer com essas coisas então. Agora essas facilidades todas permitem que um número enorme de bobagens fique circulando por aí...

Hoje, pela não-sei-qual-ésima vez, minha primeira atividade ao abrir meu e-mail foi matar o enorme número de mensagens não solicitadas que ultrapassaram não um mas dois softwares de bloqueio de SPAM. Saudades do tempo em que essa poluição não existia e em que, conquanto as interfaces gráficas não fossem tão bonitinhas, havia respeito pelo espaço dos outros. Admito que a quantidade de informações e a velocidade talvez não fosse tão grande, mas a quantidade de bobagens que eram jogadas ao vento eram a centésima parte do que se vê hoje. A democracia é uma coisa interessante: joga contra seu próprio patrimônio quando não vem acompanhada de respeito e educação.

The Lurker Says: A responsabilidade e a educação deveriam seguir, pelo menos em parte, o avanço da tecnologia.

fevereiro 25, 2003

The Lurker e o carnaval (ou para mergulhador velho, regulador novo)

Inicialmente cabem desculpas pela infreqüência das visitas do editor deste, em especial ao Monossílabo Si que se queixa da ausência de novidades: excusez mademoseille.

Este último período de trabalho tem sido extenuante. Recompensador, divertido e todas as coisas boas que o trabalho às vezes apresenta, mas extenuante mesmo assim. De qualquer sorte, o próprio nome já indica que este blog não pretende ter atualização freqüente e, de mais a mais, o papo por aqui andava muito sério. Chega de conversas e vamos ao que interessa.

Mergulhar: verbo transitivo direto referente à imersão de um corpo sólido em um líquido de menor densidade específica. Conjuga-se no presente do indicativo, primeira pessoa do singular: Eu mergulho. E o faço desde meus tenros 10 anos ou algo assim. Naturalmente é uma paixão estranha para um sujeito que nasceu e se criou no planalto central brasileiro, conhecido por sua seca subsaariana e mais ainda quando a praia mais próxima está a mais ou menos 1.200 Km de distância. Enfim, não há que se discutir sobre isso, mas sim que há duas semanas atrás concluí meu quarto curso de mergulho "básico".

Não, eu não sou retardado e não precisei fazer a mesma coisa quatro vezes para ver se pegava o jeito. Os dois primeiros cursos, realizados nas idades de 14 e 17 anos não habilitavam internacionalmente e o terceiro foi feito somente para acompanhar minha, então, noiva no processo e, por motivos que não cabem aqui, não foi concluído. Fez-se necessária nova habilitação, portanto.

Dentre os aspectos divertidos de fazer o básico pela 4ª vez está que a nomenclatura à qual fui acostumado e onde executei os primeiros estudos era um tanto diferente do que se pratica hoje. Por exemplo, nadadeira era “pé de pato”, máscara era “óculos de mergulho” e cilindro era “garrafa”. É preciso que se ressalte a mudança de materiais, formatos e particularidades das épocas também. Por exemplo, quando comecei, colete equilibrador (BC) era um negócio caríssimo, que ninguém tinha e que não vinha integrado ao “back pack” – uma espécie de cela de fibra de vidro para colocar o cilindro nas costas. Hoje em dia é equipamento de segurança obrigatório. Aliás, “na minha época”, cilindro era de aço e os de alumínio que se usam hoje eram mais novidade do que qualquer outra coisa (custavam uma fortuna). Hoje em dia é o contrário: tem-se que gramar um bocado para achar um de aço.

Nota técnica: Recentemente descobri que a Cobra Sub mantém ainda hoje grande parte dos equipamentos com características muito semelhantes às de 10 anos atrás (máscara era Super Puma e nadadeira Spinta – e dê-se por satisfeito). Em resumo, nem tudo evolui no mundo subaquático. :-)

De qualquer forma, o caso é que dia 28 às 13:30 embarca-se para Parati para uma série de, nada menos que, 11 mergulhos, todos embarcados, bonitinhos, com direito a ônibus semi-leito com filminho e outras coisas divertidas. A hospedagem deve ficar por conta da Pousada Porto Paraty (rebatizada como Porto Imperial mas eu preferia o nome antigo). Sinceramente, depois de duas semanas de estágio no inferno, botando a primeira fase da avaliação do programa para funcionar, tudo de que se precisa são quatro dias soltando borbulhas a 12 metros. Sim, porque isso deve dar mais ou menos 14 horas efetivas debaixo d´água e se não curar o início de stress, nada vai dar jeito.

Em breve terei a grata satisfação de relatar aos (3?) estimados leitores(as) as aventuras de The Lurker under the sea.

(este mergulho foi trazido até você num oferecimento da Divers University)

The Lurker says: "Thaaare she blows!" (hmmm.... era isso mesmo, capitão Ahab?)

fevereiro 12, 2003

The Lurker e a Discriminação (ou é fácil colocar o espinheiro em chamas)

Nunca, na história recente da república, alguém conseguiu tratar a questão racial no Brasil com tamanha dose de demagogia, irresponsabilidade, falta de planejamento e visão (que chegam mesmo a beirar a má-fé) como o ex-govenador do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho. Este, no apagar das luzes do que ele denominava governo (e seres pensantes denominam catástrofe) estabeleceu por decreto uma política de quotas para as universidade estaduais do estado, sendo 50% para alunos “afrodescendentes” e oriundos de escolas públicas.

Entenda-se: não há qualquer tipo de equívoco em que se queira estabelecer políticas compensatórias para reduzir o abismo social no País. Também ninguém falará contra uma proposta que, de maneira responsável, procure mitigar as disparidades econômico-sociais existentes no Brasil. Mas o que foi proposto, além de irresponsável, pode ter conseqüências muito mais sérias do que se imagina. Vejamos os fatos divulgados até o momento:

1) As médias obtidas pelos alunos beneficiados pelas quotas são, por vezes, até 11,4 vezes inferiores às dos alunos não beneficiados. No caso mais crítico, o curso de Odontologia, o último classificado pelo vestibular tradicional fez 77,5 pontos sobre um total de 100, enquanto o último colocado que ingressou pelo sistema de quotas fez apenas 6,2 pontos sobre o mesmo total;

2) Alunos nestas condições necessitarão de suporte que, para começo de conversa, permita que prossigam na vida acadêmica, através de aulas reforço e outras iniciativas para isto;

3) A reitoria da UERJ estima um custo de R$ 12,7 milhões para estas ações remediais em, só em 2003 e o tesouro estadual está com um déficit de mais de R$ 1 bilhão. Quem vai pagar esta conta? A “Garotinha” acha que o Governo Federal tem que arcar com parte da despesa. Tomemos por absurdo que isso fosse verdade: de onde é que eles vão tirar os R$ 6,35 milhões faltantes?

O que se observa é que esta política é equivocada e demagógica porque não resolve o problema em sua origem (a educação básica) sendo ao mesmo tempo segregacionista e não-inclusiva, na medida em que cria castas de estudantes: a que precisa e a que não precisa de cursos remediais. Pior ainda: dados os resultados do vestibular, os estudantes serão identificados como deste ou daquele grupo pela cor da pele. Sinto pelos alunos "afrodescententes" que já se encontram dentro do curso e que entraram pelas vias "normais".

Este mesmo tipo de perspectiva equivocada foi adotada por alguns cursos de exatas ao observar que os alunos não tinham base para os cursos de cálculo, criando a disciplina de “Cálculo Zero” – que antecedia a “Cálculo Um”. Parece vício do Brasileiro, agir sempre sobre as conseqüências (reativamente) ao invés das causas (proativamente). Ao invés de se exigir uma educação básica de qualidade, providencia-se o paliativo. É algo como o médico que receita analgésico para reduzir a dor de cabeça mas não se preocupa em identificar o que causa o sintoma (e o paciente morre de meningite).

Preocupo-me seriamente, tendo encontrado em minha vida profissional diversos "afrodescententes" de grande inteligência e capacidade que completaram seus cursos de Graduação e Pós-graduação com mérito. Pessoas que conseguiram galgar posições, atingiram desempenhos comendados e onde a cor da pele não importava tanto assim. Venceram "apesar" de terem estudado em escolas públicas e ingressaram em uma instituição federal de ensino superior. Ildomar, Valnei, Telmely, Abelardo, entre tantos outros, não podem ser agora considerados como profissionais "favorecidos" por uma política demagógica. Não é justo que, depois de todo este esforço, eles passem agora a ser discriminados também por isso. E mais, se eles conseguiram, outros podem também.

Cabe aqui um parágrafo publicado no editorial do Jornal “A Tarde” de Salvador (12 de fevereiro de 2003). Lembro aos distintos leitores que Salvador é uma cidade de maioria negra. Vejamos pois o que escrevem:

“Pondo de lado a obviedade de que só educação básica e crescimento econômico acabam com a exclusão social, o Brasil assistiu a um gigantesco golpe de suborno eleitoral que, por todos os efeitos nefastos que já produziu e ainda vai produzir, deveria levar seus autores à prisão.”

The Lurker says: No Brasil o racismo não é questão de pele: a segregação é econômica. A cor está presente por conseqüência histórica - poderia não estar.

fevereiro 06, 2003

The Lurker e a Entropia (ou Stephen Hawking meu herói)

Ontem foi dia para encontrar, mesmo que brevemente, um grupo de amigos(as) que trafega a mesma estrada a cerca de cinco anos. É preciso que se esclareça: trata-se de um conjunto de pessoas que “compartilhou” uma equipe muito afinada, tanto afetiva quanto profissionalmente. Por motivos os mais vários, dessas coisas que a vida faz, ocorreu um afastamento (profissional) mas todos se esforçam para manter o vínculo (pessoal).

Bem, então ontem foi o dia para encontrar essas pessoas espalhadas pela esplanada. E tempo para ver o estado de desorganização e balbúrdia que está se tornando o processo de sucessão no executivo, a partir da nova (se alguma) perspectiva do governo. A confusão está tão grande que chego quase (disse quase) a sentir-me deixado de lado por não participar da azáfama coletiva.

Não, minha veia crítica não me subiu a cabeça, mas tenho baixa tolerância a desorganização (em especial no serviço público, onde o dinheiro é meu também). Veja se parece razoável que uma pessoa seja indicada para um determinado DAS, ver a publicação do ato no Diário Oficial e, nem bem seca a tinta no jornal, saber-se destituído(a) no dia seguinte? Ou um Diretor de departamento que, indicado mas não empossado, realiza reuniões com a sua (wannabe) equipe de trabalho para saber-se “desindicado” ao final de uma semana (ou no início da semana subseqüente). Ou uma terceira figura que, instada(o) a colocar seu cargo a disposição – coisa que é de sua obrigação – diz que não o fará e que, de agora em diante, trabalhará como técnico(a), manstendo suas regalias?

Pombas. Pessoas não são brinquedos: gente é gente e capivara é um bicho, como diz o Vital. Apesar da opinião do Vital contar pouco (afinal, amanuense e botafoguense são duas designações ingratas) ele tem lá sua razão. Essas gentes assumem compromissos, se preparam para mudanças sérias em suas vidas - mudam de emprego, de casa, de cidade, assumem dívidas, dizem coisas e fazem coisas que não fariam se fossem permanecer onde estão. Para depois vir a Imprensa Oficial e, oficialmente, dizer “olha, era brincadeirinha viu?” ou “tinha um sujeito com uma pistola aqui e... lembra do DAS que lhe prometeram?”.

Esta é a primeira transição de governo que posso acompanhar e, confesso, espero que as anteriores tenham se constituído em atividades mais civilizadas do que a que observo agora (a do Collor não conta e a do Roriz para o Cristóvão muito menos). Não que acredite nesta bobagem de centro-direita facistóide de que o PT está enfiando os pés pelas mãos porque não tem experiência de governo. Ora, eles também não tinham. O que eles tinham (e tem) é vontade de se locupletar. E com isso, pelo menos em parte, o PT não concorda.

The Lurker Says: “As necessidades da maioria superam aquelas dos indivíduos.” Mas, droga Spock, não esculhamba.

fevereiro 03, 2003

The Lurker e o presidente "Arbusto" (e, infelizmente, não é uma Sarça)

"Washington, DC
(Reuters)

A tragic and sad fire has destroyed the personal library of President George W. Bush. Both of his books have been lost. The president is reportedly devastated -- apparently, he had not finished coloring the second one."

janeiro 30, 2003

The Lurker vai a Manaus (ou no rio Negro não tem bacalhau)

Há algum tempo decidi que seria interessante conhecer todos os estados do Brasil. Chame de capricho, se quiser, mas acho que foi em 1997 que vi que, realmente faltava pouco para conseguir isso. Bem, dei mais um passo para conseguir este intento, viajando para o Amazonas. Faltam, então, mais quatro estados para cumprir a “travessia brasiliana”: Acre, Amapá, Pará e Roraima (certo, nenhum estava em sua lista de escolhas para as próximas férias). Ou seja, estou aceitando atividades profissionais que me levem a visitar especificamente estes estados.

Anyway, Manaus tem seus méritos. O hotel em que fiquei se situa do lado do Theatro Amazonas (aquele com a bandeira no teto) e meu quarto dava uma vista muito interessante para ele. Se ficasse em Paris, certamente corresponderia à Place de L´Opera. Incrível imaginar o dinheiro que deve ter circulado nessa região na época do ciclo da borracha. As fotos antigas mostram que as ruas em volta sequer tinham claçamento, mas este teatro enorme está lá, do lado do Palácio da Justiça (outra construção interessante e recém restaurada).

Depois de cumpridas as atividades laborais de praxe, fui convidado pela equipe local para ir a um restaurante no encontro das águas do Rio Negro com o Solimões (a partir daí o rio passa a chamar-se Amazonas - The LurKeR também é cultura). Fui apresentado a um Tambaqui grelhado (excelente) e uma Calderada de Tucunaré (nem tão interessante, mas é feio recusar, não é?). Detalhe, eu realmente não gosto de peixe. Se elogio, deve-se ao fato de que realmente estava muito bom.

Depois de uma volta próximo à borda da floresta, que pulsa como se fosse um organismo vivo e único, chegou a hora de me largarem... aonde, em um domingo em Manaus? Bem, meio contra minha religião, fui bater no Shopping Amazonas. Resolvi então provocar o choque: o que poderia ser mais antagônico do que uma floresta tropical?
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O "muderno" cinema americano.... "A serviço de sua majestade britânica"... Puá!

Chame de choque... eu chamo o filme de lixo.

A parte chata da coisa foi o vôo em que me colocaram, às 02:00 da manhã (hora local) 12:00 em Bsb. Desnecessário dizer que a segunda-feira foi um dia de tortura, mesmo voando na executiva.

Peculiaridades:

Em Manaus, casa de tolerância tem um dístico na placa: Ambiente Familiar. Alguém quer me dizer, mais ou menos o que vem a ser isso?

Manaus não tem sambódromo: tem Boiódromo. That´s right. As cores por lá não são verde e rosa, mas vermelho e azul. E as aulas nos colégios são dimensionadas para permitir um intervalo de duas semanas na época do boi. Eu, pessoalmente, sou do Caprichoso.

The Lurker says: Viva la jungla!

janeiro 15, 2003

The Lurker e o Fim da Agonia (ou good things come to those who wait)

Saiu, finalmente, o resultado da seleção do doutorado… Muita gente me criticou por eu não haver considerado as diversas opiniões de que eu haveria passado, mas há um motivo para isso: quando fiz a primeira seleção para o mestrado, em parte devido à minha inexperiência, fui mandado de volta para casa na entrevista (parte final do processo, onde todo mundo dizia que ia ser fácil – não foi).

Em conclusão, a bola balançou a rede e o homem de preto apitou, apontando o centro do campo... agora é me esfalfar e enlouquecer familiares e amigos pelos próximos quatro anos, perder noites de sono, fins de semana e um saco de outras coisas para ver a luz no fim do canudo. :-)

Meu orientador convidou-me ontem, juntamente com Paula, Paulo e mais duas amigas, para um jantar comemorativo... só que não me avisou que seria "his treat" até a hora que eu me mexi para pagar minha parte. Confesso que gostei da surpresa... pena que o próximo vai ser só daqui a quatro anos. Mas aí quero no Tour d´Argent... ;-)

The Lurker Says: sic transit gloria mundi (ou qualquer coisa parecida)

janeiro 03, 2003

The Lurker Quiz

Mais alguém além de mim acha que o 1º Secretário da Câmara é a criatura mais torpe, vil, pusilânime, mesquinha, rastejante, gosmenta, ignorante, lastimável, baixa e decadente do cenário político nacional? Aonde já se viu, depois de pedir aumento de 150% para os parlamentares em outubro/novembro (bem no apagar das luzes) sair com essa de "olha para mim! eu nasci no mesmo estado do presidente empossado!". PATETA!
The Lurker em conflito social (ou tem gente que tem razão mas não sabe reclamar)

Inicialmente cabem alguns esclarecimentos: até que nossas salas novas fiquem prontas, a equipe de Avaliação está temporariamente ocupando um espaço no térreo do prédio da Associação Brasileira de Municípios (ABM) – prédio que se situa ao lado do da UNESCO. Este fato já gerou situações inusitadas e esta foi mais uma delas.

Estamos concluindo uma reunião quando um sujeito entra e interpela nossa secretária sobre alguma coisa da ABM, com a qual não temos qualquer contato profissional. Não obstante os esclarecimentos, o sujeito derrama sobre nosso grupo toda sua carga de frustrações contra o sistema (do qual, em sua visão, devemos fazer parte). É preciso que se diga: todo o grupo tem uma preocupação com o bem-estar social e todos já pesquisaram, de uma forma ou outra, as situações que ele agora descreve. Ocorre que é totalmente ineficiente destilar isto sobre este grupo em particular: não dispomos de qualquer meio para ajudá-lo – e, justamente por já ter pesquisado antes, não vamos contribuir com dinheiro para o que quer que seja.

Acalmado o cidadão, ele se vai. Entretanto, volta depois para dizer, pela janela, outras tantas coisas justamente à Jéssica, a secretária. E é aí que eu perco a paciência: ele tem o direito de se expressar, mas não somos repartição pública. Mesmo que fôssemos, não cabe achacar justamente a pessoa que, claramente, menos tem como interferir na situação! E destratar gente da minha equipe, que é pequena mas dedicada, é pedir encrenca comigo.

O que mais me aborrece é o fato de que, até certo ponto, considero legítimas as demandas e queixas do sujeito. Mas não adianta reclamar com o bilheteiro se o filme é ruim! E não venha me destratar a moça em Brasília porque o PSDB “está roubando a bolsa-escola no Amazonas”. No fim das contas, a revolta é a mesma, mas em níveis diferentes (e eu achando que não era hipócrita)...
The Lurker em ataque de ansiedade (ou I´m eating my head out)

Pipocas, não agüento mais esperar que os bonitinhos da UnB se dignem a divulgar os resultados do processo de seleção para o doutorado... acho engraçado a forma como eles tratam a questão dos prazos: minha entrevista foi 12/12 e os resultados, que certamente já estão resolvidos, somente serão divulgados no dia 10/01/03.

Vá lá que seja. Admite-se que seja a regra do jogo. Agora, depois da divulgação o vivente tem dois dias para mandar carta com o aceite da vaga. Dois dias! Chega a quatro se for por e-mail, mas é um absurdo! O sujeito não pode nem se arriscar a pegar uma praia menos, digamos, civilizada. Tem que estar em um canto onde, não satisfeito de ter acesso à Internet para checar os resultados, possa passar igualmente um e-mail. Bolas, as matrículas são somente em março!

The Lurker says: AAAAARRRGH! (a little tension break, huh?)
The Lurker and the Holidays (ou ondshe foish que eshtachionei meu tchrenó, sheu guarda?)

Este deve ter sido o natal/ano novo mais etílico de que me recordo e isso, estranhamente, não rimou com qualquer tipo de “alteração alcóolica de comportamento”. Apesar da sobriedade que mantive por quase todo o tempo, entornamos rigorosamente todos os dias. Vejamos, por exemplo, o último dia do ano:

14:00 hs – Whisky com o pessoal da Anatel. A turma do funil (de sempre) na sala (de sempre) conversando os assuntos de sempre – como resolver os problemas das telecomunicações no país daqui a quinze minutos e as causas que criaram estes problemas. Como cheguei já meio tarde, boa parte do pessoal já estava devidamente calibrado...

17:30 hs – Tá bom, chega, ano que vem tem mais. Agora vamos almoçar. Naturalmente, a escolha lógica seria o Porcão, não fosse o fato deles terem fechado às 17:00 para preparar o reveillon. E é que o Tony (Tornado) gentilmente esclarece ainda na entrada. Hmmm... o Francisco da Academia de Tênis é uma escolha bastante próxima. Vamos para lá (André, Marcos Gil e eu).

Excepcionalmente André resolve pagar a tarde... muito bem. Nada como trabalhar para o Dantas. Por minha escolha, seleciona um Mouton Cadet 1996 (também boa safra, mas 92 era melhor). Paula vem nos encontrar depois, para atribuir um pouco de sanidade ao grupo. Terminamos de “almoçar” às 19:30 e encontramos com o Luis Gushiken na saída. O tonto (literalmente) do Marcos ainda sai com a de que ele “era o petista favorito dele”. Bolas, o MG é do PFL e não reconheceria uma estrela do PT nem que ela lhe caísse na cabeça.

A carraspana continua, depois que larguei o Marcos, fomos deixar o carro do André na casa dele. Por lá descobri que a irmã dele foi minha aluna na UnB... isto aqui é uma fazenda asfaltada.

Daí toca para a casa da Sogra (Sogra´s Grill e Coffee House) onde a festa foi divertidíssima, com direito a reencontrar vários amigos de tempos idos, dois dos quais (Daniel e Soma) voltaram especialmente dos EUA para as estações. Fim de noite regada a Jack Daniels e poker de feijãozinho (eu sempre disse que poker se joga apostado, não disse?). Fazia tempo que fim de ano não era tão bom.

janeiro 01, 2003

The Lurker volta ao Rio - (ou fluctuat, nec mergitur)

A nova viagem ao Rio, como de hábito, representou um mergulho ao mundo gastronômico. O Antiquarius continua sendo um de meus pontos favoritos, mas desta vez dispensei o Dry Martini: com a fome que eu tinha, isso haveria de dar bobagem. O prato, para (não) variar, foi o Escalope ao Roquefort, acompanhado de batatas sautées. Muito bom, mas desta vez alguém esqueceu a mão no pode de mostarda... mais atenção ao queijo, cavalheiros...

A adição, desta feita, foi o Cipriani, como já havia mencionado, restaurante que fica no térreo do Copacabana Palace. Seguindo os passos de uma jovem dama carioca, conhecida por seu gosto impecável, que faz pesquisa sobre o Fetuccine Alfredo em diversos restaurantes como medida pessoal de qualidade, pedi um Filet ao Roquefort, este acompanhado de batatas douradas à Provençal. O Dry Martini deles é impecável, conquanto seja mais caro que o do Antiquarius. O vinho escolhido foi um Mouton Cadet tinto, 1992. Boa safra para a região de Bordeaux e, servido na temperatura certa, agradou a todos na mesa (exceto o cavalheiro que pediu o linguado com arroz de frutos do mar, mas isso é uma outra história – ele era um chatonildo).

O Rio é igualmente conhecido pela tradição de seus botecos. Paris tem cafés, Roma, trattorias. O Rio produz e exporta botecos. A revista de bordo da TAM recomenda o Bar Luis, em operação desde 1839. Desta vez, a incursão não foi tão sofisticada, mas incluiu visita a dois aglomerados de bares, chamados Cobal – uma no Humaitá (Rua Voluntarios da Patria, 448) e outra no Leblon (alguma ajuda na geografia seria bem aceita para esta: o taxista fez um mundo de voltas...). De qualquer forma, tratam-se de lugares interessantes, mas sem nenhum atrativo mais particular que justifique trocá-las por uma visita aos Quiosques da Lagoa.

The Lurker says: pouca coisa é tão interessante como descobrir novos lugares e conversar com pessoas diferentes...

dezembro 31, 2002

The Lurker volta ao Rio - (ou garçom, tem uma cereja no meu dry martini)

O Rio de Janeiro não é, definitivamente, local para se estar a trabalho (ainda mais nas férias dos outros – tanto pior se o trabalho for em um fim de semana).

Primeiro, a temperatura é absolutamente proibitiva para que tem que andar “empacotado”. Terno e gravata deveriam ser abolidos no verão. Segundo porque trabalhar parece ser a última das opções de todos os viventes que estejam em idade produtiva. E todo mundo acha divertido, do assensorista ao diretor de corporação, curtir com a cara do "paulista" que tem que andar com o penduricalho (gravata, bem entendido) no pescoço.

De maneira semelhante à Bahia, um dos aspectos mais interessantes da cidade está relacionado à própria população.Via de regra, a receptividade é positiva a brincadeiras que se faça e as pessoas, não importa sua formação, são capazes de articular frases como “preciso levar minha mãe ao cirurgião maxilo-buco-facial” sem fazer careta, nem perder o rebolado, como certos habitantes de outras plagas. Neste sentido cabe a reprodução de alguns diálogos peculiares:

No lobby do Palace

Recepcionista – Are you with the consultive group for CESPE?
The Lurker (aceno afirmativo de cabeça).
R. – Lunch is going to take place at the Cipriani, sir.
TL – Thank you kindly for addressing me in English, but you can do it just as well in Portuguese, as I´m used to (wink).
R. – (sorriso) É que dois estrangeiros já estiveram aqui e imaginei que o Sr. estivesse com eles.
TL. – Logo vi. Mas seu inglês estava tão simpático que não vi motivo para interrompê-la.
R. – (risos) Obrigada. We try our best…

No Empório Verde

The Lurker – Estou procurando por umas balas de tamarindo que existem aqui pelo Rio. Me disseram que vocês tem.
Atendendente – Um minuto só
Senhora – Essas balas são boas?
TL– São feias feito o pecado, tem uma embalagem pior do que biscoito Globo, mas são deliciosas.
S. – Feia feito o pecado! (risos) essa eu nunca havia escutado!
TL – Tenho uma amiga que se refere à elas com “feias como um susto e uma corrida”. Também descreve adequadamente.
(a atendente chega com as balas)
TL – A senhora gostaria de experimentar.
S – Depois dessa descrição, gostaria de pelo menos vê-las antes!

A trilha musical da viagem é cortesia de Carlos Silva Matos, taxista que prepara seus próprios CDs com um bom gosto que deveria ser mais praticado por certas rádios que estão por aí. Cruzando a Lagoa, no caminho da Cobal de volta para Copacabana, Sinatra cantava Let me Try Again, seguido por Nat King Cole com seu The Very Thought of You . Agora imagine isso com as luzes refletidas, o Rio aceso e o tráfego fluindo tranqüilo em uma noite estrelada e com uma árvore de natal “aquática” lançando luzes para o céu.

The Lurker Says: Hemingway disse "ver Paris e depois morrer"... Perdoe-o: ele ainda não conhecia o Rio...

dezembro 29, 2002

The Lurker volta ao Rio - "ou quousque tandem abutere, Catilina, patientia nostra?”

Mal tomo meu assento, na janela de um lotado A300 da Tam, percebo uma altercação na fileira imediatamente à minha frente

O Chato – Qual o número de seu assento?
Jovem – 4A (estende o ticket de embarke) - para a conferência do desconhecido. Nada como estar armada com a verdade (e estar previamente sentada na posissão assignada).

O Chato olha e constata a veracidade do que foi dito. Resolve então retroceder na contra-maré das pessoas que entram. Em voz muito mais alta do que o necessário, dado que a aeronave se encontra no solo, e ele está próximo da cozinha da proa, diz com uma voz em que transpassa vitória sobre o sistema e que o falante vai, agora, resolver seus recalques:

– Aeromoça! Duplicidade de assento! Aeromoça!! Duplicidade de assento!!

Segue-se uma discussão absolutamente desnecessária sobre os direitos do usuário, o qual é sempre o prejudicado, e os códigos de defesa, Infraero, Serviço de Proteção ao Vôo e o capeta de asa. Comento com o passageiro mais próximo sobre como a discussão é desnecessária, já que o assento a meu lado e o imediatamente à frente estão desocupados. Ambos achamos engraçada da afetação do Chato, que quer ir de janelinha, claro.

– Vanessa, se o problema todo é esse, avise que eu cedo meu lugar à janela. Vamos tratar de decolar.
– Muito obrigada, mas estamos contornando a situação.

A essa altura, os demais passageiros já se encontram acomodados, e a porta não pode ser fechada porque o despachante tem que acalmar o sujeito, que agora só falta exigir que o avião seja reformado para receber mais uma janela. Finalmente, a aeromoça cede e pede que, com efeito, eu ceda meu lugar como havia me proposto originalmente.

– Naturalmente – respondo levantando-me – Mas gostaria de me sentar no assento à frente (4B).
– Perfeitamente, responde ela. – Ao que o passageiro a meu lado emenda:
– Ah, sim: Agora você vai lá pra frente e deixa que eu me entenda com o Chato. Muito bonito - diz em tom de graça.
– Sinto muitíssimo - respondo com uma expressão condoída (como se me afetasse muito). Sou imitado em meu sorriso por diversos outros passageiros que acompanham o diálogo. – Todos temos que dar nossa quota de sacrifícios... - completo

Com isso o pessoal em volta desanda a rir abertamente, exatamente no momento em que o Chato aparece, com cara de "no capisco niente" e vai se aboletar na janela que me pertencia. Grandessíssimo pateta.

Já em meu novo assento e depois de algum tempo rindo-me sozinho da situação, abro meu laptop e vou trabalhar no capítulo de um livro que a Amália está preparando sobre, justamente, Satisfação do Usuário... definitivamente, a vida adora estas pequenas ironias...

The Lurker says: Exija seus direitos, lute por suas convicções mas, bolas, vá amolar o boi!

dezembro 22, 2002

The Lurker em momento de auto-crítica (não ria: amanhã pode ser você... :-)

O CHATO

Ah! Todo chato é bonzinho
Nunca nos fez nenhum mal
Ah! todo chato é calminho
Como se faltasse sal
Ah! todo chato te conta
Aonde passou o natal
E sempre te dá uma dica
De onde ir no carnaval
Ah! todo chato cutuca
Prá você prestar atenção
Chama a cabeça de cuca
E arranha um violão
Diz que inventou uma música
E toca as seiscentas que fez
E quando você abre a tua boca e boceja
Ele toca tudinho outra vez
Ah! Todo chato é gosmento
E não há como evitar
Eu sou um chato e meu Deus não me aguento
Só me tacando no mar.
Eu sou um chato e meu Deus não me aguento
Só me tacando no mar.

Oswaldo Montenegro - OS MENESTRÉIS

dezembro 21, 2002

The Lurker and the happy life of middle mannagement (ou "keep your powder dry, sonny boy")

Quinta-feira foi um dia insano... A manhã transcorreu calma, com pouca coisa para incomodar e a equipe going by their own affairs. Acho que parte do pessoal já está se integrando, considerando que alguns estão conosco apenas pela segunda semana.

Tirei a tarde de folga (privilégios do comando, so to speak) para comparece ao amigo “ocúltero” da Agência, realizado na casa de um engenheiro, enfiada no final do Lago Norte. E lá estou eu, minding my own business, comendo meu churrasco e conversando sobre o triste destino das telecomunicações nacionais, quando toca o telefone: é o meu subcontratado de elite, querendo discutir coisas sobre a proposta de trabalho. Muito bem, discutamos - fala-se por quase vinte minutos, enfiado em um banheiro, porque a balbúrdia reinante não permite que se ouça sequer os próprios pensamentos (acho que não fiz muitos pontos com o pessoal da fila...)

Tudo esclarecido? Voltemos ao churrasco e à conversa, quando o celular se agita novamente: é o dito cujo outra vez, querendo discutir outros aspectos da proposta. Bolas, não se tem sossego. Corre-se para o banheiro/cabine telefônica. “Está mais claro agora?” ótimo. Onde estava mesmo aquele queijo de coalho?

Só que não é bem assim. Ligo, agora eu, para o pessoal da Avaliação e conto a história. Neste ínterim, o sub contratado também liga para a Avaliação, para confirmar as instruções. Sugestão que recebe deles - ligue para o Gerente Executivo, o qual dá uma sonora patada (ele é argentino) na pobre moça e diz a ela o que eu já havia dito. Hmm... isso está ficando complexo melhor abortar o amigo "ocúltero" e ir pessoalmente resolver esta encrenca, certo? Errado. Ou melhor, decisão certa, bad timming.

Uma técnica que não tinha nada a ver com a história consegue armar uma confusão tal sobre o documento - sobre o qual ela não tinha que saber nada, porque não era parte do projeto - que termino a tarde na mesa da diretora do Centro, discutindo com o diretor executivo aquilo que já havia sido acertado a meses com outro gerente.

Bolas! Amanhã tenho que treinar uma série de elaboradores para a avaliação. Essas pessoas são contratadas deles... mas não espero ter nenhuma posição institucional sobre a realização do projeto tendo-o como parceiro... logo...

a) não treino ninguém até que se resolva a situação e atraso com isso (mais ainda) o cronograma;
b) treino esse pessoal e os contrato na modalidade produto, para que preparem o material necessário;
c)contrato pessoal exclusivo para a o trabalho e desisto de trabalhar com meu sub de elite nessa rodada.

Peek a feature....

O pior é que, na minha opinião, a tal técnica que gerou essa bagunça viu do que se tratava o projeto e tentou entrar pela porta dos fundos, apesar de ter se arrastado dizendo que não foi intencional. Eu abomino este tipo de movimento espertinho.

The Lurker says: Keep your friends close and your enemies closer (and your phasers set to stun).